AGRO AGORA

Agricultura resistente às mudanças climáticas

“Resiliência” é definida como a capacidade de resistir ou se adaptar a mudanças repentinas, retornando, então, ao estado de “normalidade” ou equilíbrio. No caso de sistemas agrários, “resiliência” é entendida como a capacidade de manter as características agronômicas (como a produção de alimentos) frente às adversidades e condições ambientais, objetivo este de suma importância.

Mudanças climáticas causadas pelo aumento crescente na temperatura atmosférica global têm sido observadas em todo o mundo desde a Revolução Industrial. Os cenários climáticos projetados para as próximas décadas evidenciam aumentos na frequência e na intensidade de eventos climáticos extremos, como longos períodos de calor e seca, precipitações pesadas, inundações, entre outros. Um estudo realizado pela Universidade da Colúmbia Britânica mostrou que as mudanças climáticas foram diretamente responsáveis por uma redução da produtividade média mundial de alimentos como milho, soja, arroz e trigo – que equivalem a 60% do total de calorias cultivadas – entre os anos de 1981 e 2010.

 

Agricultura resistente

 

Além de afetar a produtividade das culturas, o clima também interfere nas taxas de reprodução, crescimento, qualidade e teor de nutrientes de cultivos agrícolas e pecuários. No Brasil, os resultados dessas alterações causam ainda mais prejuízo, uma vez que mais de 90% das áreas agrícolas dependem do regime natural de chuvas. Em períodos inesperados de seca, o agricultor tem que aumentar seu consumo de água e gastar com irrigadores artificiais. Visando evitar um impacto ainda mais significativo no futuro, o setor agrícola deverá atuar em duas frentes: a mitigação dos danos e a adaptação às novas condições climáticas.

 

A biotecnologia vem sendo utilizada na agricultura há muito tempo e, basicamente, envolve o melhoramento de organismos relevantes por seleção e cruzamento, de forma a fixar características desejadas. Inicialmente, o processo de seleção artificial era feito de forma mais rudimentar, no qual se escolhiam os organismos com características desejadas e os cruzavam, de modo a perpetuar aquela característica vantajosa, mas com pouco controle no âmbito genético. Com a evolução da tecnologia, novas ferramentas biotecnológicas surgiram e atualmente permitem um ajuste fino e controlado das características que serão expressas em determinada espécie. Ferramentas como marcadores moleculares, edição gênica, transgenia e técnicas de caracterização mais precisas e em larga escala passaram a ser empregadas, visando acelerar a disponibilização de cultivares adaptados às condições regionais específicas.

 

O desenvolvimento de variedades mais adaptadas e tolerantes às altas temperaturas e aos longos períodos de restrição hídrica será imprescindível para o aumento sustentável da produção agrícola nas próximas décadas. Importantes soluções biotecnológicas à seca estão se tornando mais comuns, e tendem a aumentar nos próximos anos devido à grande urgência de resultados e ao grande investimento que empresas e universidade têm feito no setor para trazer mais resiliência aos sistemas agrários. O uso de engenharia genética e edição gênica, por exemplo, aumentou o rendimento de grãos de milho em até 120% sob forte estresse hídrico após a introdução de genes de interesse e tornou cultivos de cacau mais resistentes aos aumentos de temperatura, respectivamente.

 

A adoção crescente de práticas sustentáveis também é um fator essencial na luta contra os efeitos das mudanças climáticas. A emissão desenfreada de gases poluentes na atmosfera, como o CO2, acelera o processo de aquecimento global. Porém, enquanto carros e indústrias emitem esses gases nocivos em grandes quantidades, as plantas capturam CO2 durante a fotossíntese e lançam oxigênio na atmosfera. Utilizando as plantas como sequestradores de carbono, a agricultura, que hoje é responsável por 24% do total de emissões de gases de efeito estufa no mundo, pode se tornar parte da solução.

 

Dessa forma, projetos inovadores como a Iniciativa Carbono Bayer, em parceria com a Embrapa, que tem por objetivo desenvolver uma metodologia de mensuração de sequestro de carbono e capitalizar as iniciativas ambientais dos agricultores, fomentam práticas sustentáveis e permitem que agricultores mantenham a resiliência de suas culturas, mantendo uma boa produtividade e rendimentos durante o processo de transição entre a agricultura “tradicional” e a agricultura sustentável.

 

REFERÊNCIAS

Agência FAPESP – Biotecnologia pode tornar agricultura resiliente às mudanças no clima | AGÊNCIA FAPESP.

 

Bayer Crop Science – A Carbon Neutral Future for Agriculture | Bayer Crop Science.

 

CASTIGLIONI, P. et al. Bacterial RNA chaperones confer abiotic stress tolerance in plants and improved grain yield in maize under water-limited conditions. Plant Physiol. v. 147, 2008.

 

ÉPOCA Negócios – A resposta da Bayer para uma agricultura mais sustentável: faça mais com menos - Época Negócios | Empresa (globo.com).

 

HERDT, R.W. Biotechnology in agriculture. Annu. Rev. Environ. Resour, v.31, 2006. DOI: 10.1146/annurev.energy.31.031405.091314.

 

IIZUMI, T.; RAMANKUTTY, N. Changes in yield variability of major crops for 1981–2010 explained by climate change. Environmental Research Letters, v. 11, 2016. DOI: 10.1088/1748-9326/11/3/034003.

 

Portal Digital Agro – O efeito das mudanças climáticas na agricultura do Brasil.

 

VARGAS, C; ROMERO, S; SICARD, T; Key points of resilience to climate change: a necessary debate from agroecological systems, Climate and Development, v. 12, DOI: 10.1080/17565529.2019.1664376.

 

YASSITEPE, J. et al. Genômica aplicada às mudanças climáticas: biotecnologia para a agricultura digital – LV-Agricultura-digital-2020-cap11.pdf (embrapa.br).

 

Tags: agricultura, agricultura resistente, mudanças climáticas, biotecnologia.

Giuliana Medeiros

Giuliana Medeiros é bióloga e mestre em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Juiz de Fora.