06/06/2017

Entendendo a fundo as plantas daninhas

Com certeza você já ouviu a expressão “não vamos nos aprofundar nas plantas daninhas”

Adrian Percy*

 

Já participei de mais reuniões do que sou capaz de recordar, evitar falar das plantas daninhas ajuda a simplificar a conversa e não nos atermos a detalhes triviais. No entanto, há momentos em que simples generalizações não são suficientes e você precisa ir um pouco mais fundo. Retornei recentemente do Segundo Desafio Global de Resistência aos Herbicidas, realizado em Denver, Estados Unidos, e acho que é justo dizer que "ir fundo nas plantas daninhas" foi a essência dessa Conferência!

 

Um dos maiores desafios que os agricultores enfrentam hoje em dia é a resistência das plantas daninhas. A planta daninha é o fator mais importante que afeta as perdas de culturas em todo o mundo. Os herbicidas permitem que os agricultores protejam suas colheitas da ameaça representada por centenas de milhões de sementes de plantas daninhas que podem esconder-se dentro de cada talhão da fazenda.

 

Enquanto o controle químico das plantas daninhas continua a ser a espinha dorsal do manejo, o excesso de confiança em soluções simples de herbicidas levou à disseminação rápida da resistência. A "Pesquisa internacional de Plantas Daninhas Resistentes aos Herbicidas" atualmente lista 251 espécies que desenvolveram resistência a pelo menos um herbicida, observando que plantas daninhas resistentes foram relatadas em 91 culturas de 69 países.

 

Durante a Conferência de Denver, como parte de um programa interdisciplinar, ouvimos palestrantes especializados em diversos temas, como genética molecular das plantas, gerenciamento não químico, comunicação, impactos socioeconômicos, bem como especialistas que trabalham com a resistência a inseticidas, fungicidas e antibióticos. Tive a honra de participar de uma mesa redonda com especialistas de várias especialidades diferentes, e realizar uma palestra sobre a visão da Bayer a respeito do futuro das soluções de manejo de plantas daninhas. Mas o que realmente me inspirou foi ver a dedicação de tantas pessoas talentosas, que não medem esforços na sua busca em resolver os problemas críticos que enfrenta o manejo moderno de plantas daninhas.

 

Isso não quer dizer que será uma tarefa fácil. A resistência das plantas daninhas é uma ameaça existencial, e não é uma questão de onde ela ocorrerá, mas sim de quando e de quão gravemente será. O desafio é desenvolver estratégias de manejo de resistência acessíveis, que façam sentido para apoiar a sustentabilidade econômica e ambiental em longo prazo na agricultura.

 

Uma estratégia-chave do manejo moderno de plantas daninhas envolve a alternância de diferentes herbicidas que atuam de maneiras diferentes (modos de ação), em diferentes locais (locais de ação), para atrasar ou minimizar a evolução da resistência. Alternar ou misturar medidas de controle mantém as populações de plantas daninhas "fora de equilíbrio", além de interferir na pressão de seleção natural para desenvolver resistência. Embora isso possa ser bastante eficaz, os cientistas identificaram apenas cerca de uma dúzia de modos de ação, e cerca de duas dúzias de locais de ação - um pequeno número, considerando milhares de espécies de plantas daninhas que estão evoluindo constantemente para competir com os alimentos que cultivamos.

 

A Bayer contribui para solucionar a resistência das plantas daninhas

Basear-se em tão poucos produtos para controlar tantas plantas daninhas é um problema que é piorado pelo fato de que a descoberta de novos herbicidas diminuiu drasticamente. Não houve novos mecanismos de ação significativos introduzidos nos últimos 30 anos! Embora seja difícil encontrar novos herbicidas, dado que a resistência das plantas daninhas evoluiu para quase todos os locais de ação conhecidos, tenho o orgulho de dizer que a Bayer está totalmente comprometida com a pesquisa de herbicidas e com o nosso apoio ao manejo integrado de plantas daninhas.

 

Um pilar fundamental da nossa abordagem científica para o manejo de plantas daninhas é o Weed Resistance Competence Center (Centro de Competência da Resistência das Plantas Daninhas, sigla em inglês) em Frankfurt, na Alemanha, onde testamos e desenvolvemos novas soluções para gerenciar a resistência, trabalhando em estreita cooperação com vários parceiros externos. Ao compreender os mecanismos moleculares e outros envolvidos na resistência das plantas daninhas, esperamos desenvolver novas formas de detectar e evitar o aparecimento da resistência aos herbicidas nas principais culturas. Nenhuma outra empresa executa rotineiramente tantas amostras para confirmar a resistência, incluindo a procura de mutações em locais-alvos e de metabolismo melhorado, que é onde a resistência começa em muitas espécies de plantas daninhas.

 

À medida que trabalhamos intensamente para descobrir novos herbicidas, não podemos nos dar ao luxo de esquecer o aqui e agora. Devemos aproveitar ao máximo as ferramentas que temos, utilizando-as em um sólido programa de Manejo Integrado de Plantas Daninhas.

 

As soluções de hoje permitem que os produtores aumentem os rendimentos, minimizem a erosão do solo e reduzam o consumo de água e energia. Os programas integrados ajudam a preservar esses benefícios extraordinários, usando herbicidas como parte de uma abordagem abrangente, incluindo a alternância de culturas e traits, além de outros métodos não químicos para dificultar o desenvolvimento da resistência. Além disso, as ferramentas oferecidas pela área de “Digital Farming”, que ajudam a gerenciar as plantas daninhas, desempenharão cada vez mais um papel importante no Manejo Integrado de Plantas Daninhas.

 

Por isso fiquei tão animado em fazer parte da Conferência de Denver. Sabemos que não existe uma solução mágica, mas práticas de manejo inovadoras estão surgindo em todos os lugares - muitas vezes lideradas por agricultores que estão na vanguarda desta importante batalha. Foi ótimo ver agricultores, universidades e indústria trabalharem juntos para promover o Manejo Integrado de Plantas Daninhas e explorar novas abordagens.

 

E o melhor de tudo, ninguém se queixou de “ir fundo” no assunto.

 

*Adrian Percy é o Líder Global de Pesquisa e Desenvolvimento para a divisão Crop Science da Bayer